Publicação associa investigado a cargo sem comprovação, cria suspeição direcionada e levanta risco jurídico real para a chefe do Executivo
BIRIGUI – Em um cenário de crescente vigilância digital e tensão política local, a prefeita de Birigui, Samanta Borini, tornou-se o centro de uma controvérsia que ultrapassa o debate político e avança, sobretudo, sobre os campos ético e jurídico.
Ao utilizar suas redes sociais para divulgar a prisão de um professor de 26 anos, investigado por solicitar imagens de cunho sexual a menores, a gestora não se limitou aos fatos. Além disso, acrescentou à publicação uma informação não confirmada: a de que o investigado seria “assessor voluntário de vereador”.
O problema, portanto, não está na divulgação do caso — que é real e grave. Por outro lado, está na inserção de um elemento sem lastro oficial, o que altera a natureza da informação e, consequentemente, projeta seus efeitos sobre terceiros.
OS FATOS: INVESTIGAÇÃO REAL, NARRATIVA QUESTIONÁVEL
O professor foi preso pela Polícia Civil na última sexta-feira (10), em investigação conduzida pela Delegacia de Defesa da Mulher (DDM). Segundo as apurações, o caso teve origem em denúncias de pais que identificaram conversas suspeitas nos dispositivos de seus filhos.
Além disso, de acordo com a Secretaria de Estado da Educação, ele atuou como professor temporário e foi desligado da rede estadual em fevereiro deste ano.
Até aqui, os fatos são objetivos e verificáveis. No entanto, a distorção surge quando a prefeita introduz uma vinculação política não comprovada.
A IMPRECISÃO QUE NÃO É GENÉRICA — É DIRECIONADA
Diferente do que pode parecer à primeira vista, a menção a “assessor voluntário de vereador” não é vaga. Na prática, ela é altamente específica dentro da realidade de Birigui.
Atualmente, apenas dois vereadores da cidade utilizam esse tipo de assessoramento colaborativo. Ou seja, o universo de possíveis atingidos é extremamente restrito:
- um policial militar aposentado
- um advogado com atuação reconhecida
Dessa forma, ao não citar nomes, mas indicar a função, a prefeita não amplia a dúvida. Ao contrário, ela concentra a suspeição em um grupo diretamente identificável.
O efeito, portanto, é imediato: cria-se uma “nuvem de dúvida” que recai sobre pessoas reais, sem qualquer ligação comprovada com o crime investigado.
DESINFORMAÇÃO COM PESO INSTITUCIONAL
Não se trata de um erro comum de rede social. Pelo contrário, a fala parte da autoridade máxima do Executivo municipal.
Assim, o impacto da mensagem muda completamente:
- a informação ganha aparência institucional
- o alcance se amplia significativamente
- o dano deixa de ser hipotético e passa a ser concreto
Portanto, não é apenas uma postagem. Na verdade, é uma comunicação com potencial direto de afetar reputações e influenciar a opinião pública.
O HÁBITO DO ATAQUE SEM PROVAS: UM PADRÃO QUE SE REPETE
O episódio atual não surge isolado. Pelo contrário, ele se conecta diretamente a um precedente recente envolvendo o núcleo familiar da prefeita.
O ex-prefeito Wilson Carlos Rodrigues Borini foi condenado ao pagamento de R$ 40 mil por proferir acusações sem prova contra adversário político. Na ocasião, a Justiça foi clara ao afirmar que a existência de investigações não autoriza a atribuição de crimes sem comprovação.
Diante disso, o paralelo com a situação atual é inevitável.
Hoje, observa-se a repetição do mesmo mecanismo:
- ausência de prova
- construção narrativa
- exposição pública
A diferença, entretanto, está no meio utilizado. Agora, as redes sociais ampliam o alcance e intensificam os efeitos.
A “TEORIA DE NÁRNIA”: QUANDO A DEFESA NÃO SE SUSTENTA
Uma possível linha de defesa seria a ausência de nomes. No entanto, essa tese se enfraquece diante do contexto.
A lógica é simples:
- o fato ocorreu em Birigui
- o investigado é de Birigui
- a prefeita é de Birigui
- a Câmara mencionada é de Birigui
Assim, a interpretação natural da publicação recai sobre o cenário local.
Portanto, sustentar que a fala poderia se referir a outro contexto seria deslocar a realidade para um plano fictício. Em outras palavras, seria uma espécie de “Nárnia jurídica”, onde palavras não têm consequência.
No mundo real, porém, têm. E, mais importante, são mensuráveis.
OS RISCOS JURÍDICOS: MAIS CONCRETOS DO QUE PARECEM
A conduta pode gerar desdobramentos relevantes. Entre eles:
Danos morais
A associação indireta a crime grave pode atingir diretamente a honra de terceiros.
Além disso, difamação e calúnia
Mesmo sem nomes, a limitação do universo permite identificação indireta.
Por fim, responsabilidade administrativa
A conduta pode violar princípios constitucionais como moralidade, impessoalidade e dever de veracidade.
Somado a isso, há um agravante: o histórico recente de condenações por ataques sem prova.
DESINFORMAÇÃO COMO FERRAMENTA DE IMPACTO POLÍTICO
Ao falar para milhares de seguidores, a prefeita não apenas informa. Na prática, ela molda percepções.
E, nesse caso, os efeitos são evidentes:
- terceiros passam a ser vistos sob suspeita
- o caso criminal se mistura ao ambiente político
- o debate público é contaminado
Isso, portanto, não é neutro. Ao contrário, é institucionalmente problemático.
NÃO É DESLIZE — É POSTURA
O episódio não pode ser tratado como um simples erro. Isso porque reúne elementos que ampliam sua gravidade:
- partiu de autoridade pública
- envolveu crime sensível
- atingiu terceiros identificáveis
- utilizou informação não confirmada
Dessa forma, o problema deixa de ser pontual e passa a ser estrutural.
E isso levanta uma questão inevitável:
a comunicação da gestão está comprometida com os fatos — ou com narrativas?


