Estudo do Movimento Negro Evangélico reúne mais de 100 referências e analisa o papel de denominações religiosas durante os 388 anos de escravidão
Um dossiê lançado pelo Movimento Negro Evangélico do Brasil (MNE) reacendeu o debate sobre a participação de igrejas protestantes no período escravocrata brasileiro. Intitulado “388 anos: E a Igreja com isso?”, o documento reúne pesquisas acadêmicas, registros históricos e documentos que analisam a atuação de diversas denominações evangélicas diante da escravidão e do racismo no país.
A publicação foi apresentada nesta terça-feira (2) e busca compreender como o legado da escravidão ainda influencia as estruturas religiosas e as relações raciais dentro das comunidades de fé. Além disso, o estudo propõe reflexões sobre os desafios atuais enfrentados por fiéis negros em diferentes tradições protestantes.
Pesquisa reúne mais de 100 referências históricas
O levantamento foi elaborado a partir de ampla pesquisa bibliográfica e documental. Ao todo, o material reúne mais de 100 referências acadêmicas e históricas.
Além disso, segundo os organizadores, o estudo examina a atuação de igrejas anglicanas, metodistas, presbiterianas, batistas, luteranas e congregacionais. Dessa forma, o dossiê aponta situações de participação direta, omissão, tolerância e conivência institucional diante do sistema escravocrata que vigorou no Brasil por quase quatro séculos.
Campanha nasceu após polêmica envolvendo teólogo estrangeiro
O lançamento do material representa o ponto culminante da campanha nacional “388 anos de escravidão: e a Igreja com isso?”, iniciada pelo Movimento Negro Evangélico em 2024.
Por outro lado, a mobilização ganhou força após a divulgação da participação de um teólogo estrangeiro, conhecido por publicações em defesa da escravidão transatlântica, em um congresso evangélico realizado no Brasil.
O episódio gerou forte reação de lideranças negras cristãs e, consequentemente, ampliou a discussão sobre a responsabilidade histórica das igrejas na manutenção de estruturas racistas.
Segundo Vanessa Santos, coordenadora nacional do MNE, a iniciativa foi além da denúncia pública.
“Entendemos que era necessário promover um debate profundo sobre o papel das igrejas durante a escravidão e sobre os reflexos desse legado nas comunidades negras atuais”, afirmou.
Contradições históricas e participação religiosa
O documento destaca episódios que revelam contradições entre discursos religiosos e práticas adotadas por lideranças cristãs ao longo da história.
Por exemplo, entre os casos analisados está a atuação de grupos anglicanos ligados à mineração em Minas Gerais durante o século XIX. Segundo o estudo, empreendimentos associados a esses grupos utilizaram mão de obra escravizada mesmo diante de compromissos formais de emancipação.
Da mesma forma, a pesquisa apresenta registros de missionários, líderes religiosos e membros de igrejas envolvidos em estruturas econômicas sustentadas pela escravidão.
Dossiê também destaca vozes favoráveis à abolição
No entanto, o estudo não se limita às críticas ao papel institucional de diversas denominações. O documento também registra a atuação de religiosos e movimentos cristãos que defenderam a abolição e a dignidade da população negra.
Nesse sentido, os organizadores afirmam que o objetivo não é produzir uma narrativa unilateral. Pelo contrário, a proposta consiste em construir uma análise histórica ampla sobre a participação das igrejas protestantes no contexto escravocrata brasileiro.
Propostas de reparação histórica
Além da análise documental, o dossiê apresenta medidas de reparação institucional dentro das igrejas.
Entre as sugestões estão:
- Reconhecimento público de violações históricas;
- Fortalecimento da educação antirracista;
- Valorização de lideranças negras;
- Revisão de currículos teológicos;
- Compromisso permanente com políticas de justiça racial.
Além disso, o movimento defende que essas medidas podem contribuir para ampliar a representatividade e enfrentar desigualdades históricas dentro das comunidades religiosas.
Para o professor Brian Kibuuka, da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), o documento representa uma contribuição relevante para o debate contemporâneo.
Segundo ele, a iniciativa convida as igrejas a enfrentarem, com base em evidências históricas, questões relacionadas à escravidão, ao racismo e aos seus desdobramentos atuais.
Por fim, o Movimento Negro Evangélico defende que a construção de memória, verdade e reparação histórica constitui um passo necessário para promover transformações efetivas nas comunidades de fé brasileiras.



