Relatos apontam que pacientes enfrentam filas perdidas, telefones que não atendem e a angústia da interrupção de tratamentos de saúde essenciais, incluindo casos de epilepsia e diabetes.
Por Fábio Oliveira Birigui, SP
A rotina de quem depende da Farmácia de Alto Custo em Birigui tem se tornado um calvário de incertezas e indignação. Na segunda-feira (24), a munícipe Paula Eugelmi utilizou suas redes sociais para expor uma situação dramática que, segundo ela, afeta dezenas de famílias na cidade: a falta crônica de medicamentos de alto valor e a incomunicabilidade do serviço público.
Em uma série de desabafos, Paula relatou a via-sacra para tentar conseguir uma injeção de uso contínuo para sua mãe e o leite especial para seu filho, Davi, que possui alergias severas.
“É uma falta de respeito total”
O relato de Paula ilustra o desespero de quem não tem alternativa. A medicação de sua mãe, cujo custo na rede privada gira em torno de R$ 15 mil, precisa ser administrada a cada 30 dias. Com o prazo vencendo amanhã, a família se deparou com a negativa do fornecimento.
“Minha mãe não pode ficar sem essa injeção. Acabei de mandar mensagem para a médica perguntando se ela pode ficar sem, porque é um absurdo. A gente é obrigado a esperar a boa vontade deles, ou do Estado que manda. Se acontecer alguma coisa, o culpado ainda é a gente”, desabafou Paula em áudio.
Além da injeção, a moradora aponta a falta recorrente do leite especial para seu filho. Embora consiga suprir a falta do leite através de doações ou esforço financeiro — algo impossível no caso da injeção de R$ 15 mil — a situação expõe a fragilidade do sistema.
O telefone que ninguém atende
Um dos pontos mais críticos da denúncia envolve a gestão do atendimento local. Segundo a munícipe, ao comparecer presencialmente na unidade na semana anterior e constatar a falta dos insumos, foi orientada pelos funcionários a ligar antes de ir, para evitar viagens perdidas e aglomerações desnecessárias.
No entanto, a orientação se mostrou ineficaz. Paula afirma ter ligado mais de 14 vezes para a unidade desde as 10h da manhã, sem que ninguém atendesse.
“Falam para ligar para ver se chegou, mas ninguém atende aquela bosta daquele telefone. É um descaso total. Eles acham que a gente tem tempo de ficar indo lá, tirando criança de casa na chuva, perdendo dia de trabalho para chegar lá e não ter o remédio”, criticou.
Problema generalizado em Birigui
A publicidade do caso de Paula trouxe à tona uma situação sistêmica. Após postar sua indignação, ela recebeu relatos de diversos outros moradores de Birigui enfrentando o mesmo drama.
- Insulina: Uma amiga relatou a falta de insulina, medicamento vital para diabéticos.
- Epilepsia: Outra mãe relatou estar há cinco meses sem conseguir a medicação para a filha que sofre de epilepsia, sendo forçada a custear o tratamento do próprio bolso para evitar convulsões na criança.
- Idosos na fila: Paula testemunhou idosos esperando por longos períodos na unidade, muitas vezes para saírem de mãos vazias.
“Não é só comigo. A minha amiga cuja filha tem epilepsia está tirando do bolso de onde não tem. Se dependesse do governo, a menina já estaria internada”, alertou Paula.
O “Auto Custo” da burocracia
A munícipe reconhece que, muitas vezes, o problema de abastecimento tem origem no Governo do Estado, sendo o município responsável pelo repasse. Contudo, ela cobra uma gestão mais humana e eficiente na ponta do atendimento em Birigui.
“Deveria ter uma pessoa só para atender o telefone e dar um respaldo. Eles deveriam ter a responsabilidade de ligar para a gente e avisar quando chega, e não a gente ter que adivinhar”, sugeriu.
Até o fechamento desta matéria, o setor responsável pela distribuição dos medicamentos de Alto Custo em Birigui não havia emitido nota oficial sobre a regularização dos estoques da injeção citada, do leite Neocate, ou sobre as falhas no atendimento telefônico.
Enquanto a burocracia não se resolve, famílias como a de Paula seguem, como ela mesma definiu, “rezando para que nada de ruim aconteça”.



